O silêncio dos sinos

Aos sinos que anunciavam os mortos por febre amarela na Salvador de 1849, se impôs o silêncio em nome do que, entre as epidemias que passaram pelas terras brasilienses, é a constante: a incúria e a galhofa, o clamor pela negligência frente ao perigo em prol da tranquilidade dos trabalhadores e do bolso dos ricos. Em outros casos, mais “sinos” foram calados em nome de argumentos igualmente imbecis.

Em 26 de julho de 1974, por não agradar os censores da ditadura, a matéria de nome ‘Epidemia do silêncio’, assinada por Clóvis Rossi na Folha de São Paulo, teve de ser substituída por um trecho dos Lusíadas de Camões e não foi vista, muito menos lida, quando ela mais se fazia necessária. É certo que havia motivos para que os militares não quisessem sua publicação, e era porque aquele texto denunciava a maior epidemia de meningite que o Brasil havia visto até então, para a qual os representantes do governo não davam qualquer atenção. As razões para a negligência se assemelham muito com as que o assecla, hoje presidente, usa como justificativa para criticar as ações da mídia e dos governadores dos estados frente à pandemia de covid-19. Este repertório inclui: “a mídia é alarmista e quer espalhar pânico”, “isto vai gerar uma opinião negativa” e “é torcer contra e vai atrasar o país”. O passado é o espelho do futuro, por assim dizer, e os mesmos erros vão se repetindo num ciclo de maldições infindáveis, quer seja com a febre, com a meningite ou com a covid-19.

A epidemia começou em 1971 e terminou em 1974. Todavia, enquanto a meningite contaminava e matava sem rédeas, os porões da ditadura iam se atolando em sangue e as redações dos jornais, em medo. Assomavam-se as torturas, desaparecimentos, enclausuras, incrementavam-se a censura e desigualdade, tudo concomitante com os anos de ouro do “milagre econômico” – com o qual os saudosistas dos militares amam tanto sonhar. O ônus dessas condições era um patrimônio das massas mais pobres, porque quando os primeiros casos começaram a surgir, se espalhar entre os mais carentes e matá-los, malgrado os avisos dos profissionais de saúde e da mídia, a única ação dos militares foi o silêncio e a imposição de uma quietude forçada, a razão disso era chula: não prejudicar o crescimento econômico e não incitar a população ao pânico.

Os números que deveriam inteirar-nos de quantos infectados e mortos a epidemia deixou são, para dizer o mínimo, imprecisos e muito longe de confiáveis, o que se deve a tentativa sórdida de censura. O que poucos sabem é que, pelo menos, entre 19 mil e 67 mil pessoas em todo o Brasil ,contraíram a meningite, entre 1.600 e 3 mil destas vieram a óbito. Reitero, isso é uma estimativa de uma pandemia que estava sendo acobertada e é de se esperar que as estatísticas fossem subestimadas. Tendo em consideração a mortalidade de até 20% pela meningite meningocócica, estes números podem ser ainda maiores. Em medida de comparação, no ano de 2018 houve “míseras” 1.072 ocorrências que levaram a 218 óbitos, enquanto em 1974 se registravam nove mortos por dia (ROSSI, 1974).

Uma representação de quão desesperadora era a situação em São Paulo é o Emílio Ribas, hospital que atendeu os pacientes acometidos pela doença e que, com uma capacidade para 300 enfermos, cuidava de 1.200. Marinella Della Negra ingressou na instituição em 1972 e relatou as cenas que viveu para a CREMESP: “[…] Os doentes eram estendidos no chão, nos corredores, sobre o tampo das pias. Era um hospital de guerra (CREMESP, 2015)”. E também dou destaque para a transferência dos Jogos Pan-americanos de 1975 que, programados para terem sua abertura em São Paulo em outubro daquele ano, foram levados para a Cidade do México por receio quanto à epidemia.

Rita Barata é um nome de peso quando se quer entender o que aconteceu naqueles anos de turbulência, e como se deram os eventos, já que ela era membro do corpo médico do Emílio Ribas durante o período. Em um de seus vários artigos sobre a epidemia, intitulado “Epidemia de doença meningocócica, 1970/1977 – aparecimento e disseminação do processo endêmico” ela dá uma sentença, de que “Há […] correspondência direta entre a incidência de doença meningocócica e número de habitantes por domicílio segundo as áreas consideradas, e indireta entre a incidência e a renda mensal média nas mesmas áreas (BARATA, 1988)”. Esta é uma informação chave para se compreender as implicações sociais da epidemia na maior metrópole do país, com um aumento populacional gritante devido às massas vindas dos Nordeste brasileiro, desigualdade e saneamento básico inadequado nas periferias.

Imagine dois grupos de pessoas num cenário hipotético no qual os meios de prevenção contra uma doença mortal é lavar as mãos constantemente e manter distanciamento social. O primeiro grupo é formado por famílias de três membros, com uma casa com um cômodo para cada um deles e fluxo ininterrupto de água limpa; o segundo é composto por núcleos familiares com seis a sete membros, em casas com dois cômodos e dias sem água encanada. Qual terá maior incidência de casos e óbitos? A resposta é clara: o segundo grupo claramente sofrerá mais que o primeiro. Este cenário era a realidade da epidemia de meningite em São Paulo, resultado de três fenômenos, listados por Rita.

  1. os movimentos migratórios, que consistiam em um fluxo de pessoas que saiam do interior do país, predominantemente rural – grande parte dos estados do Nordeste – para os grandes centros urbanos, em particular, São Paulo e Rio de Janeiro.
  2. O crescimento populacional, este que é um efeito direto do item i, e que era desordenado e se concentrava nas periferias, muitas vezes sem saneamento básico
  3. As péssimas condições de sobrevivência, estas que eram constantes há tempos e foram agravadas pelo crescimento desordenado, resultando em uma concentração alta de habitantes numa única região, com famílias numerosas e casas pequenas

Em síntese, a epidemia se propagou e matou mais nas populações que se encontravam nas áreas com níveis de renda menores, com casas menos espaçosas e saneamento básico, quando existente, falho. E isso se estas pessoas soubessem, ao menos, o que deveria ser feito, mas o regime ditatorial brasileiro lhes privou deste direito quando impediu as publicações sobre a doença para não prejudicar um crescimento econômico que, como sabemos hoje, não foi nem “milagre” e nem positivo.

Eram – e são – condições desiguais e danos injustos. Sem se importar com critérios dúbios, como cor de pele e riqueza, a meningite infecta qualquer corpo ao qual tenha acesso e, entretanto, existem grupos com mais ou menos meios de dificultar a infecção. Nos anos 70, pela desigualdade institucionalizada, pela negligência do Estado ditatorial brasileiro e pela falta de cuidado para com os mais carentes, muitas mortes não foram impedidas.

Infelizmente, há um paralelo bastante claro entre o modus operandi dos ditadores de 1964-85, e de Jair Bolsonaro: ambos são igualmente culpados pelas mortes que estes vírus causaram, por serem negligentes, por colocarem suas ambições políticas acima do bem-estar e da segurança daqueles que, por lei, devem proteger. Em caso destas semelhanças não estarem claras ao leitor, elas são: a) negligência e falta de ação contra o alastramento da epidemia; b) campanha ativa contra o trabalho dos meios de imprensa; c) há o argumento de que existe um sensacionalismo midiático e exagero. Este modus operandi se revelou ainda mais mortal em 2020, quando um novo vírus afetou todo o mundo e, por culpa do presidente, atingiu o Brasil em especial. Inclusive, é correto dizer que as atitudes de Bolsonaro vão se revelando como um genocídio. Ora, ao incitar a população a desobedecer às orientações dos órgãos de saúde, ao impedir as ações dos líderes que tentam agir, ele mata. É autoritário, é abjeto, é vil.

Por Moisés Moreira

REFERÊNCIAS:

  1. BERNARDO, André. Escolas fechadas, hospitais lotados, eventos cancelados: o Brasil da meningite de 1974. Disponível em: <https://www.bbc.com/portuguese/brasil-52058352>. Acesso em 7 de maio de 2020.
  2. BBC. O que é a meningite meningocócica. Disponível em: <https://www.bbc.com/portuguese/brasil-46922973>. Acesso em 7 de maio de 2020.
  3. SILVEIRA, Evanildo. ‘Lentidão e descaso com os pobres’: como governos brasileiros reagiram a epidemias na História. Disponível em: <https://www.bbc.com/portuguese/brasil-52008613>. Acesso em 7 de maio de 2020.
  4. CREMESP. Meningite, a epidemia que a ditadura não conseguiu esconder. Disponível em: <https://www.cremesp.org.br/?siteAcao=Revista&id=216>. Acesso em 7 de maio de 2020.
  5. ROSSI, Clóvis. ‘A epidemia do silêncio’: texto de Clóvis Rossi censurado em 1974. Disponível em: <http://m.acervo.estadao.com.br/noticias/acervo,a-epidemia-do-silencio-texto-censurado-de-clovis-rossi-em-1974,70002872715,0.htm>. Acesso em 7 de maio de 2020.
  6. BARATA, R. de C. B. Epidemia de doença meningocócica, 1970/1977: Aparecimento e disseminação do processo epidêmico. Rev. Saúde públ., S. Paulo, 22:16-24, 1988.
  7. A imagem do título foi retirada da Folha de São Paulo

Sobre o autor

Moisés Reis

Estudante de História na Universidade do Estado da Bahia, diretor-executivo e redator no JUDAS! Escrevo sobre a repressão dos regimes da América Latina e outras coisas, gosto de filmes, boas histórias e música, se tiver um vinho e café de acompanhamento, um tanto melhor.