O inverno do progresso e a primavera do ódio

Esta é uma história que pode evocar alguma melancolia: sobre como a humanidade, como um coletivo, não é capaz de aprender com os seus erros e a respeito do choque que é causado quando nos lembramos de como víamos o futuro no passado e de como ele se mostrou hoje, quando o alcançamos. Para quem tinha seus 13 ou 14 anos em 2013, pensar num futuro tão longínquo quando o ano de 2020 era um exercício de imaginação. Concebíamos um mundo em que o progresso reinava absoluto, no qual o Brasil se tornaria o tão sonhado “país do futuro” e as guerras entre as potências seriam uma história de tempos passados e sem previsões de retorno, com cada vez menos líderes autoritários e cada vez mais liberdade, seja de imprensa e de expressão – das mais diversas formas. É triste lembrar disto e ver o quão enganados nós estávamos! Em algum momento, as rédeas foram perdidas. Tentarei elucidar o por que e, para tal, voltaremos na história.

Tomarei como um ponto de partida o ano de 1929, da Grande Depressão. Nesse momento, os europeus que detinham o poder financeiro iam perdendo dinheiro e, como sempre fazem em tempos de crises, dividiram o ônus de suas perdas com os pobres: os proletários e camponeses. Era um quadro de gravíssimos problemas sociais: fome, desemprego e falta de assistência das instituições, o que, quando somados, aumentavam a violência e o desespero. Em situações assim, não existem soluções simples e rápidas para tais necessidades, e como não havia o povo se sentia sem esperanças, sem perspectiva e assustado – uma presa fácil para alguém que saiba capitalizar estes sentimentos para se promover na política e tomar o poder para si. Assim fizeram Hitler e Mussolini.

É de importância que se discorra sobre o modus operandi desses dois líderes. Uma vez no poder, eles – e outros autocratas e aspirantes a ditadores – tomam atitudes e discursos que são extremamente semelhantes. Umberto Eco, no livro “O fascismo eterno”, listou 14 características que os fascistas compartilham e Jason Stanley, de Yale, também acrescentou outros pontos. Para não me alongar desnecessariamente, citarei algumas que considero pertinentes para o restante da discussão: o culto da tradição, buscando em um tempo de glória do passado, os valores e saberes que deveriam servir de base para a civilização, como os italianos fizeram com os romanos e os alemães com os celtas; a repulsa à modernidade, para um fascista, o moderno é depravante e tosco, portanto, a cultura deve se ater ao conservadorismo, sem sofrer mudanças; o irracionalismo, a ação pela ação, eles têm o entendimento de que pensar é uma forma de castração, isto tem como uma consequência o desprezo ao intelectualismo, visto que ele depende de pensamento e crítica; o antipacifismo, uma espécie de guerra eterna contra um inimigo eleito, sejam os judeus ou comunistas, entende-se que o Estado está em constante ameaça; por fim, o vitimismo, um sentimento de que os trabalhadores ou classe média estão sendo perseguidos, que seus costumes estão sendo ameaçados e que devem se defender.

Em suma, o fascismo se elege a partir do medo e do desespero e se mantém no poder através dos mecanismos de manipulação que Umberto Eco listou. Além disso, é crucial que se entenda que a burguesia, por medo de perder suas fábricas e privilégios para algum grupo de trabalhadores revoltosos, comunistas ou judeus – na verdade, qualquer inimigo que se invente para sustentar o fascista – cede sua influência a tais líderes, que mantêm as suas propriedades e seus lucros.

Nascidos na crise, Adolf Hitler e Benito Mussolini foram derrotados e mortos no fim da Segunda Guerra Mundial, no entanto, a história não se findou. Logo após o fim da guerra e o primeiro e único uso de armas de destruição em massa em Hiroshima e Nagasaki, o globo se viu imerso em uma nova guerra, agora, entre os Estados Unidos e a União Soviética, o capitalismo e o socialismo. O medo agora era do apocalipse nuclear, de que as duas potências se digladiariam numa guerra que poderia por fim a existência humana. Entre 1947 e 1991 – quando os soviéticos capitularam – o imaginário popular foi tomado por uma gama de teorias da conspiração e guerra ideológica. Os países do Ocidente, liderados pelos Estados Unidos, tomaram para si o título de “defensores da liberdade”, mas financiavam uma rede de ditaduras e governos autoritários em seus quintais – do qual fazia parte o Brasil e toda a América Latina. Tais governos, em nome da caça ao inimigo soviético e comunista, cometiam toda a sorte de atrocidades. Os países do Leste Europeu, por sua vez, sofriam sob o julgo de Moscou e também tinham suas liberdades cerceadas. Neste período, reinava a desinformação e a desconfiança – quem mentisse melhor e mais rápido e fizesse sua população crer que o “outro lado” era a mais pura encarnação do mal, ganhava.

Detentores da “verdade” autodeclarada, as ditaduras que forjaram as mentiras que foram espalhadas aos quatro ventos sobre os comunistas e capitalistas, não se dissiparam quando, em 1991, a Guerra Fria teve um fim. É verdade, não havia mais risco de um armagedon iminente, e os autocratas no Brasil haviam cedido o poder para os democratas. Mas as mentiras, elas ficam. De um modo ou de outro, a década de 90 foi de mudanças: o mundo ia se tornando multilateral e se falava em cooperação internacional para sanar problemas históricos, os Estados iam reconhecendo seus erros do passado e as propostas dos progressistas estavam sendo aceitas. Ora, quem imaginaria que os homossexuais iriam conseguir o direito de se casar – e ainda bem que conseguiram – ou que o Brasil iria ter um operário como seu presidente e os Estados Unidos, um preto na Casa Branca? Até o Vaticano pôs um latino na Santa Sé! Acho que, entre 1991 e 2013, o progresso teve sua primavera e entrou em seu inverno.

O capitalismo, com a ciclicidade da suas crises e por não se autossustentar, nos dá de presente os fascistas para que eles preservem o status quo com a força da repressão. Pois bem, o que marcou o começo da transição de um mundo progressista para a “primavera do ódio” foi a Crise de 2008. E aqui o que eu disse sobre a Crise de 1929 vai fazer sentido, porque a lógica se repete. Quando se deu a recessão, os liberais e progressistas que pautavam as discussões até então foram atingidos por um maremoto de problemas sociais decorrentes da quebra da economia: desemprego, pobreza e falta de assistência. Sem amparo, o povo se sentiu traído e deixado de lado, afinal, qual o propósito de um governo que pauta uma discussão sobre a inclusão racial e reparação histórica quando o “cidadão de bem” não encontra emprego para pagar as contas? Obviamente, este sentimento não surge do dia para a noite, ele cresce. Diante da inação da classe política no poder, pouco a pouco, ganhavam voz os demagogos que ofereciam soluções fáceis para acabar com problemas complexos, que elegiam inimigos e os prometiam combater, e isto aconteceu em todo o mundo. Estas pessoas se apoderavam das teorias conspiratórias que foram estabelecidas na Guerra Fria e usavam os meios de comunicação das redes sociais para conquistar seguidores e evocar, mais uma vez, o medo.

No fim, este sentimento levou aos demagogos o poder. Nos Estados Unidos, Donald Trump chegou à Casa Branca em 2016 e no Brasil, Bolsonaro se elegeu em 2018. Sabem o que os dois têm em comum? Além da carga de teorias da conspiração que ajudaram a elegê-los e do apoio da burguesia? Tudo o que Umberto Eco denominou como sinais de fascismo. Eles têm um inimigo que juraram combater: o comunista que está em todos os lugares e, no caso de Trump, os imigrantes latinos e os muçulmanos; eles usam do discurso de devolver a seus países sua antiga glória e dignidade, Trump sempre diz o seu jargão: “Make America Great Again”, já que o país estava desolado e perdido antes dela. Bolsonaro diz que vai devolver o Brasil ao “cidadão de bem”, já que o país estava nas mãos de vagabundos e comunistas. Ambos odeiam o moderno e a mudança social. Querem conservar o que já existe, no caso, o machismo, o racismo e a desigualdade; são irracionais, porque possuem uma repulsa tremenda ao pensamento. Negam todo o tipo de ciência e crítica, porque é inútil para eles. Por isso, taxam as universidades de um antro de comunistas e preguiçosos. E pelo mesmo motivo clamam que a imprensa é mentirosa e manipuladora, tomada pelo inimigo; são antipacifistas, visto que estão num eterno e justo combate contra as forças que vão contra a moral e os bons costumes; e por fim, são vitimistas, por terem a audácia de achar que eles são as vítimas dos intelectuais, homossexuais, feministas e dos trabalhadores que buscam seus direitos. Como Putin e Orbán, são a personificação do que há de pior.

Em 2020, a pandemia de covid-19 pôs o mundo de joelhos. Os países que possuíam líderes competentes e que seguiam os ditos dos especialistas, logo decretaram o lockdown e, talez pela primeira vez em toda a história, tivemos mais de um bilhão de humanos em confinamento. A Grande Quarentena é, sem dúvida, uma crise sem precedentes que, como a de 1929 e a de 2008, assusta e dá margem para líderes autoritários galgarem forças para se manterem no poder. Orbán, o ultradireitista da Hungria, cerceou a liberdade da imprensa quando conseguiu que o parlamento aprovasse uma lei que permite que os seus decretos possam valer por tempo indeterminado, em nome da segurança nacional. Quanto tempo mais até que outros líderes autoritários percebam o momentum? Por não aprendermos com o passado, os erros se repetem e cá estamos nós. Perdemos o rumo do progresso e deixamos o destino nas mãos dos fascistas, que é o que há de pior. Sejam bem-vindos, caros leitores, à primavera do ódio, e só podemos combatê-la e esperar que seja breve, sejam fortes!

Por Moisés Moreira

REFERÊNCIAS:

  1. FILHO, Laurindo. Os sinais do fascismo. Disponível em: <https://www.cartamaior.com.br/?/Editoria/Sociedade-e-Cultura/Os-sinais-do-fascismo/52/46070>. Acesso em 12 de julho de 2020.
  2. OperaMundi. Umberto Eco: 14 lições para identificar o neofascismo e o fascismo eterno. Disponível em: <https://operamundi.uol.com.br/samuel/43281/umberto-eco-14-licoes-para-identificar-o-neofascismo-e-o-fascismo-eterno>. Acesso em 11 de julho de 2020.

Sobre o autor

Moisés Reis

Estudante de História na Universidade do Estado da Bahia, diretor-executivo e redator no JUDAS! Escrevo sobre a repressão dos regimes da América Latina e outras coisas, gosto de filmes, boas histórias e música, se tiver um vinho e café de acompanhamento, um tanto melhor.