Covid-19: na nossa pele

Jamil Chade escreveu uma coluna para o El País no dia 17 de março na qual fala, muito efetivamente, sobre o tamanho da pandemia de SARS-Cov-2, e o título deste texto é: “A crise que definirá nossa geração: em exílio, mundo é obrigado a se repensar suas prioridades, seus líderes e seu destino”. Parem, sintam o peso destas palavras, notem a gravidade da situação. Macron, o presidente da França, falou que essa é a pior crise sanitária que seu país enfrenta nos últimos 100 anos; a União Européia fechou suas fronteiras pela primeira vez; a Itália parou por completo; Merkel, a Chanceler da Alemanha, disse que essa é a pior crise desde a Segunda Guerra Mundial; a China, a segunda maior economia do mundo, foi obrigada a deslocar todos os seus recursos para Wuhan, só para impedir que o vírus se espalhasse para o resto do país, impondo uma quarentena a milhões de pessoas; os Estados Unidos decretaram emergência nacional e irão fechar todas as escolas e universidades por, provavelmente, um ano, sem contar que o Estado da Califórnia declarou quarentena para 40 milhões de pessoas. Sabendo de tudo isto, pode-se dizer que o mundo não vê tamanha ameaça desde a Grande Depressão de 1929. A vida mudou, o normal é outro, o mundo será algo diferente no fim disso tudo. Em síntese, responderei as seguintes questões e deixarei as reflexões sobre o futuro da pós-pandemia para outros artigos:

  1. O que é o vírus?
  2. O quão perigoso ele realmente é?
  3. O que fazer

O SARS-Cov-2 é um vírus da família coronavirae, são conhecidos desde a década de 1960 e foram responsáveis por duas epidemias: a SARS e a MERS, ambas com sintomas que se assemelhavam ao coronavírus, porém, com uma taxa de mortalidade maior e capacidade de transmissão muito menor. O SARS-Cov-2 é o responsável pela epidemia de COVID-19 – nome oficial para o coronavírus – e só foi detecado em humanos em novembro de 2019, em Wuhan, na China, e presume-se que passou de morcegos para humanos, mas não existe consenso quanto a isto. Ele se espalha assustadoramente rápido, quase geometricamente e não é particularmente mortal para a população infantil, adolescente e adulta, mantendo uma taxa de cerca de 3% de fatalidades se estes não tiverem complicações agravantes, como histórico de consumo de cigarros, diabetes, imunodeficiência, hipertensão ou problemas respiratórios variados. Enquanto isso, a chance de evoluir ao óbito em idosos a partir dos 70 anos é 5 vezes maior, chegando a 15% ou mais, se possuírem as complicações supracitadas. De todos os infectados, 80% apresentam sintomas leves, 15%, graves e 5%, críticos. A disseminação costuma ocorrer pelo ar ou por contato pessoal com secreções contaminadas, como coriza e saliva, o que põe qualquer um que esteja a um metro de um infectado com risco de contrair o vírus.

O principal problema causado pelo COVID-19 é a velocidade e facilidade de propagação, que juntas levam a uma sobrecarga dos hospitais que resulta numa total incapacidade de atender todos os pacientes em estado grave. Se um Estado detém cerca de 2.000 leitos distribuídos por todo os hospitais do território e precisa lidar com 100.000 infectados simultaneamente, a capacidade de oferecer suporte para os que necessitam já é superada em 3.000, número de indivíduos que, infelizmente, possuem grandes chances de falecer. É para isto que servem as quarentenas e restrições: desacelerar a disseminação do COVID-19 para que todos os que necessitam de atendimento sejam devidamente tratados e, quanto mais tempo sem restrições de tom mais rígido, mais o vírus se alastra, e quanto mais ele o faz, mais doentes precisaram de hospitais e mais deles serão obrigados a lidar com a COVID-19 sem acesso ao suporte do sistema de saúde e, por conseguinte, mais morrerão.

Continuando, os números da Jhons Hopkins University para o dia 25 de março são os seguintes: 436.159 casos confirmados, com o epicentro na Itália, Estados Unidos e Espanha e 19.648 mortes – todos estes números tendem a aumentar consideravelmente nos próximos dias. Estes casos cresceram muito e num espaço de tempo muito curto, para provar o quão rápido isto acontece, usarei o exemplo da Itália – que provavelmente irá se aplicar ao Brasil.

Segundo as informações da Jhons Hopkins, no dia 19 de fevereiro a Itália tinha míseros 3 casos contabilizados, sete dias depois, 528, mais outra semana, 3 mil casos, outra semana, 11 mil, e no dia 25 de março, 69.176 infectados e 6.820 mortes. No epicentro da pandemia dentro da Itália, que é a região da Lombardia, a situação já é desesperadora e os médicos já chegaram ao ponto de serem obrigados a escolher quem vai viver e quem, provavelmente, vai voltar para casa e morrer. O Brasil ainda não chegou neste ponto de criticidade, mas vai, como a curva de crescimento mostra bem (infelizmente).

Os tempos que o futuro nos reserva não dão quaisquer sinais de tranquilidade, paz ou, até mesmo, normalidade. A nossa curva de contágio é rápida e tende a crescer, e rápido, e as medidas de segurança e mitigação são mínimas e pior, são tomadas pelos executivos das unidades da federação sem qualquer esperança de contar com a ajuda do executivo federal, este que, representado pelo presidente, mais de uma vez tratou a pandemia como uma “gripezinha” e tentou tomar medidas que iriam, se aprovadas, dificultar em milhares de vezes a vida do brasileiro médio: eu e você. Se quiser números, serão cerca de dois milhões de mortos se não forem tomadas atitudes urgentes: parar todo o país ao modo da China e Itália.

Os tempos são duros para todos e para que isso termine o mais cedo possível, todos precisam fazer concessões e seguir as regras que nos serão impostas. Faço um apelo: fiquem em casa, lavem as mãos, cuidem dos idosos, não sejam egoístas ou estúpidos. A situação é extremamente séria, todo o suposto “alarde” e “paranóia” – termos cunhados ao COVID-19 pelo nosso presidente – são fatos e devem ser levados a sério. Festas, churrascos, happy hour, não são nem um pouco recomendáveis e devem ser evitados, assim como qualquer tipo de aglomeração de pessoas. Isso vai passar, mas até lá, sejamos inteligentes, sensatos, não seguiremos o exemplo de Jair Bolsonaro.

Por Moisés Moreira

REFERÊNCIAS:

  1. Organização Mundial da Saúde. Coronavirus. Disponível em: https://www.who.int/healthtopics/coronavirus. Acesso em 16 de Março de 2020.
  2. Público. DGS trabalha com cenário de 21 mil infectados pelo coronavírus na semana mais crítica: “É como a gripe”. Disponível em: https://www.publico.pt/2020/02/29/sociedade/noticia/dgs-trabalha-cenario-21-milinfectados-coronavirus-semana-critica-gripe-1905949. Acesso em 16 de Março de 2020.
  3. CHADE, Jamil. A crise que definirá nossa geração: em exílio, mundo é obrigado a se repensar suas prioridades, seus líderes e seu destino. Disponível em: https://brasil.elpais.com/opiniao/2020-03-17/a-crise-que-definira-nossa-geracao.html. Acesso em 23 de Março de 2020.
  4. MANGAM, Dan; AMARO, Silvia. European Union will close external borders for 30 days to slow coronavirus pandemic. Disponível em: https://www.cnbc.com/2020/03/17/coronaviruseuropean-union-leaders-agree-to-close-borders.html. Acesso em 23 de Março de 2020.
  5. NIENABER, Michael; CARREL, Paul. Merkel tells Germans: Fighting virus demands war-time solidarity. Disponível em: <https://www.reuters.com/article/us-health-coronavirus-germany/merkel-tells-germans-fighting-virus-demands-war-time-solidarity-idUSKBN2153GX>. Acesso em 23 de Março de 2020.
  6. EMANUEL, Ezekiel; PHILLIPS, James e PERSAD, Govind. How the Coronavirus May Force Doctors to Decide Who Can Live and Who Dies. Disponível em: https://www.nytimes.com/2020/03/12/opinion/coronavirus-hospital-shortage.html. Acesso em 23 de Março de 2020.
  7. DUARTE, Júlia. Cientistas prevem até 2 milhões de mortes no Brasil no pior cenário sem medidas para conter o vírus. Disponível em: https://www.opovo.com.br/coronavirus/2020/03/19/cientistas-prevem-ate-2-milhoes-de-mortes-no-brasil-no-pior-cenario-sem-medidas-para-conter-o-virus.html. Acesso em 23 de Março de 2020.
  8. FERGUSON, Neil et al. Impact of non-pharmaceutical interventions (NPIs) to reduce COVID19 mortality and healthcare demand. Disponível em: <https://www.imperial.ac.uk/media/imperial-college/medicine/sph/ide/gida-fellowships/Imperial-College-COVID19-NPI-modelling-16-03-2020.pdf>. Acesso em 25 de Março de 2019.

Sobre o autor

Moisés Reis

Estudante de História na Universidade do Estado da Bahia, diretor-executivo e redator no JUDAS! Escrevo sobre a repressão dos regimes da América Latina e outras coisas, gosto de filmes, boas histórias e música, se tiver um vinho e café de acompanhamento, um tanto melhor.