“Capturar, espancar e xingar, despir e vendar os olhos, humilhar, espancar, levar para um dos centros de extermínio, jogar ao chão com violência, espancar, trancar. Esse era o ritual de recepção que a Dirección de Inteligencia Nacional, a DINA, dava aos cativos, e depois, era a tortura e liberação, ou a tortura e a morte.”

SEIS MIL DIAS DE INFERNO: uma história de tortura

1 de fevereiro de 2021

EM ANOS SE FORAM UNS 17, em semanas, 861 e em dias, 6 mil: de inferno, de horror e de medo. Os segundos, os minutos e as horas que se passaram no espaço de tempo que descrevi, indubitavelmente, demoraram como demoram os éons e celebraram o nascimento de traumas que perduram nas entranhas das vítimas que foram torturadas e dos pais, namorados e filhos que perderam aqueles que amavam. Essa era é, então, o que separou o de 11 de setembro de 1973 e o 11 de março de 1990 – respectivamente, o início e o fim da ditadura de Pinochet no Chile, que se foi para saltar na seção de lixo da história que é reservada aos assassinos, torturadores e monstros de toda a sorte.

Em números, a ditadura é responsável por 3 mil mortos e 40 mil torturados em porões de extermínio e vilania, como a Colonia Dignidad de Paul Schäfer – um ex-nazista, pedófilo e torturador que auxilou o regime de Pinochet por décadas – e a Villa Grimaldi. Em uma mania de perseguição a uma esquerda que inexistia em força de oposição, perturbado, consternado e frente a ameaça do comunismo de Moscou e as pressões de Washington, Pinochet deu a luz ao ‘el monstro’: a Dirección de Inteligencia Nacional, que tinha as prerrogativas para caçar os comunistas: intelectuais, artistas, estudantes, políticos de esquerda e as forças que se opuseram ao golpe de 1973 – dentre os quais está um general, pai de Michelle Bachelet, torturado, morto e alvo de chacota de Bolsonaro em 2019.

Capturar, espancar e xingar, despir e vendar os olhos, humilhar, espancar, levar para um dos centros de extermínio, jogar ao chão com violência, espancar, trancar. Esse era o ritual de recepção que a Dirección de Inteligencia Nacional, a DINA, dava aos cativos, e depois, era a tortura e liberação, ou a tortura e a morte. Na Villa Grimaldi, o quartel-general da DINA, a tortura era em cadeiras de metal, na parrila, nas “Casas Chile” e nas celdas da torre – onde a morte era certeira.

A Villa Grimaldi era um restaurante de uma beleza que aconchegava: tinha uma torre d’água para abastecer os jardins, uma piscina e um mosaico no chão da entrada. Invadido e ocupado pelos militares na ocasião do golpe, tornou-se o Cuartel Terranova, e enquanto um centro de extermínio, a torre se tornou o inferno dos infernos e o mosaico, as boas-vindas do tártaro – vendados, as pedras do mosaico eram o limite da visão dos prisioneiros. De restaurante ao pior dos pesadelos, as torturas que os agentes da ditadura se dispuseram a levar a cabo na Villa Grimaldi são de assombrar.

As torturas começavam com a cadeira de metal, a parrila, o submarino e o pau-de-arara. Como um campo de concentração que se preze, os enclausurados eram despidos de suas roupas, de seus documentos e pertences, não poderiam contar com um advogado ou com um habeas corpus e, na verdade, não existiam para a lei. Primeiro, havia os eletrochoques que eram aplicados na cadeira de metal ou na parrila – uma cama de grades de metal, e em ambas, os fios de eletricidade eram aplicados às partes mais sensíveis do corpo: genitália, axilas, boca e nariz.

Há um relato de um preso de Valparaíso em 1986, Abelardo Sanchez, sobre os eletrochoques. Não era a Villa Grimaldi, mas o exemplo é válido:

“[…] Eu estava amarrado na parrila […] fios foram colocados nos meus pés, peitoral, ânus e na abertura do meu pênis, braços e axilas. Eles repetiram os choques incontáveis vezes, e eu acabei com sangue na urina […] depois me fizeram sentar numa cadeira de metal e minha cabeça foi amarrada a uma espécie de tiara de metal através da qual os choques eram aplicados. Quando a eletricidade passava pela tiara e pela cadeira, eu tinha a impressão de que a cadeira se movia de um lado para o outro, e óculos de borracha muito grossos foram postos nos meus olhos, para que os olhos não saltassem para fora das órbitas […]” (ANI, 1986 p. 5)

Enquanto os presos eram torturados com os choques e com o “submarino” – inserção da cabeça da vítima em água até o ponto de quase-asfixia – os interrogadores não se abstinham de chutes, socos e pontapés, intercalados por perguntas a respeito de nomes, endereços e localizações de opositores. Os que torturavam também não tinham o pudor de poupar as suas vítimas do tormento de levar à eles o medo através do psicológico, seja ao obrigar um pai a ver o seu filho, inocente, receber chutes nas genitálias e choques no corpo até que se dissesse o que os torturadores quisessem ouvir; seja ao levar os torturados em uma caminhonete para o ermo e ameaçá-los com a execução; ou dizer que, entre os gritos de dor que eram indistinguíveis, falar que ali estavam aqueles que a vítima tinha o seu zelo: amigos, tios, enamorados e pais.

E para as mulheres, os horrores que eu citei acima se somavam com a ameaça, ou ato, de estupro – em especial na Villa Sexy, cujo o nome é remetido aos abusos que lá eram ainda mais comuns. Sobre isso, eu deixo o relato de Suzana Burgueño: “gŕavida de dois meses durante a prisão, ela disse que lhe foram aplicados eletrochoques em sua vagina. Os seus captores sabiam que estava grávida e a ameaçaram falando que o bebê iria nascer morto.” (ibid, p. 13) e a história de Patrícia Peña que foi presa em 4 de setembro de 1986, estuprada, engravidou de seu algoz, teve o início de um processo de aborto e não havia remédios na prisão para tratá-la, ela ficou em um estado de angústia e depressão e teve a sua requisição para atendimento psiquiátrico negada, Patrícia só pode ir ao hospital em 26 de novembro do mesmo ano (ibid, p. 13).

Todavia, se isso não fosse o suficiente, na Villa Grimaldi havia as “Casas CORVI” para os homens e as mulheres: cubículos na escuridão de 1m² com um buraco – muito pequeno – na parede para a entrada de ar. Os presos poderiam passar até três ou cinco dias nesses espaços com até cinco companheiros ao mesmo tempo, que não podiam esticar as pernas e tinham que revezar a oportunidade de ficar de pé para se alongar e respirar o ar que passava pela entrada, como o acesso ao banheiro era negado, o cheiro era insuportável, e eles ainda permaneciam nesse ambiente de olhos com vendas e pés com correntes.

FONTE: PABLO MOLINA

Por último, se o sofrimento que eu descrevi ainda não fosse o bastante para satisfazer a DINA, havia a “La Torre” – a antiga torre d’água que abastecia o jardim da Villa Grimaldi. Eram enviados para lá os prisioneiros que tinham já tinham a morte como o destino, no entanto, a tortura ainda se seguiria por alguns dias. Os algozes trancavam os presos, que já haviam passado por um inferno, em “celdas” ou “conejeras”: armários de 80x100cm. Imagine o quanto isso é pequeno. Se, depois de dias ou horas nas conejeras o cativo ainda tivesse vida em seu corpo, ele era executado – muitas vezes jogados de um helicóptero na Baía de Quíntero. E para os outros, se não morressem, iriam para os campos de Trés ou Cuatro Alámos – no Trés, teriam condições melhores, veriam seus parentes e com alguma sorte, seriam soltos; no Cuatro, o terror iria ter seguimento, em suas celas, havia inscrições nas paredes: “Sou de Temuco, permaneci nessa cela de 13 de abril a 2 de junho de 1974” e “vivi 16 dias de horror, avisem minha mãe, Cecília”. Me pergunto se as pessoas que escreveram, sejam quem forem, voltaram para as suas casas e viram as suas famílias ou se viraram um monte de memórias nos corações de quem os amam.

Depois de tudo, encerrar esse artigo em um tom que evoque alguma calma ou paz é difícil, mas nos tempos de turbulência em que estamos, talvez seja necessário. Enquanto eu lia e relia os artigos e relatos que continham as coisas que citei – e tenham em mente que eu ocultei o que havia de pior – se misturavam aos textos das torturas as histórias nas quais os cativos, que sequer se conheciam, se acalentavam e davam o pouco de suas forças aos seus camaradas. As mulheres se abraçavam em suas celas e cantavam as cantigas de suas infâncias, e os homens abraçavam e faziam carinhos nos cabelos dos que chegavam da tortura, para que tivessem bons sonhos ao dormir. Em particular, houve uma história que me acalentou, e eu a deixo na esperança de que, talvez, acalente você, leitor.

“Cláudio resistiu e sobreviveu as sessões de tortura graças a solidariedade do resto dos detidos e ao canto de Gabriela, sua namorada, que estava detida na mesma prisão. Ela, com uma voz melodiosa, nos oferecia uma música que o vento dava conta de carregar. Sua cantiga foi ouvida por toda a prisão, ela atravessou as paredes e as celas e silenciou as ameaças dos torturadores… Até que chegou nos ouvidos do seu amado, que recebeu a mensagem e viu sua energia para resistir se multiplicar aos montes.“ (CORRAL, 2015, p. 268)

  1. Anistia Internacional. Chile action network: 50 cases of torture. 1986, 40 p.
  2. CORRAL, Hugo. Biopolitics and homo sacer in a torture center in Chile. Revista DireitoGV, São Paulo, 11 (1), p. 257-276, 2015.
  3. Bolsonaro exalta ditadura de Pinochet no Chile e ataca pai de Bachelet. VEJA, 4 de setembro de 2019. Disponível em: <https://veja.abril.com.br/mundo/bolsonaro-exalta-ditadura-de-pinochet-no-chile-e-ataca-pai-de-bachelet/>. Acesso em 21 de janeiro de 2021.
  4. NEPUMOCENO, Eric. Uma militante relate a tortura sob Pinochet. Folha de São Paulo, 1 de março de 2015. Disponível em: <https://www1.folha.uol.com.br/ilustrissima/2015/03/1595826-uma-militante-relata-a-tortura-sob-pinochet.shtml>. Acesso em 22 de janeiro de 2021.

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