“O que faz surgir um movimento social é, para além da sua organização, a natureza de uma demanda específica com interesses comuns.”

MOVIMENTOS SOCIAIS “CONECTADOS”: a internet como possibilidade de organização

22 de dezembro de 2020

AS NOVAS TECNOLOGIAS TROUXERAM DIVERSAS MUDANÇAS SOCIAIS, mudanças que retumbaram nas relações por meio do uso massivo das redes sociais. Foi também a partir das redes que os movimentos sociais se organizaram nas últimas duas décadas, através de um ciberativismo crescente. Faz-se necessário analisar aqui, portanto, como os movimentos sociais se conectam em interesses comuns – como redes de interação informal – a partir do uso das redes sociais; e como tais redes possibilitaram um modo ‘sistêmico’ de organização destes movimentos.

No Brasil, deteremos o nosso olhar para o ciberativismo após os movimentos de 2013. Entretanto, nada de novidade nas terras tupiniquins. O “prisma da novidade” cai por terra, por exemplo, ao se analisar como a questão da novidade é um conceito pouco específico. Ao enxergarmos os protestos como um modo de participar ativamente da democracia brasileira também retiramos o estigma de novidade. Redes como PeaceNet e mobilizações de hackerativismo consolidam a afirmação de que o ciberativismo é atuante antes mesmo da popularização da internet.

Ademais, as redes sociais conectam pessoas de interesses variados, de diferentes realidades e experiências. Surge, na última década, como uma “comunicação autônoma”. Diante dessa afirmação, é necessário pensar como as mobilizações pela internet conseguem unir pessoas em um interesse comum (no caso de integração a movimentos sociais específicos) e, ao mesmo tempo, borbulhar as ruas com protestos modulares de interesses distintos. Neste momento, pergunta-se: quais demandas atender? Quais interesses acolher?

O que faz surgir um movimento social é, para além da sua organização, a natureza de uma demanda específica com interesses comuns. A partir da análise dos protestos de 2013, vê-se como a mobilização de protestos – no ceio de uma crise democrática – não destaca a atuação de um único movimento social. Entretanto, com interesses divididos o suficiente, os protestos que compõem o Brasil de 2013 até o ano atual (também chamados de “protestos à direita”) figuram diversas construções de movimentos sociais, que promoveram inclusive estratégias de atuação institucional, como o MBL, por exemplo.

Falo dos protestos de 2013 como um exemplo porque essa agenda de eventos marcou instintivamente a noção analítica dos pesquisadores brasileiros sobre os movimentos sociais e o campo de análises dos protestos. Mas, a direção dos eventos comutou e ainda comuta em uma grande ramificação de interesses. O ciberativismo pós-2010 demonstra, portanto, uma estrutura que facilita a difusão de ações e uma articulação “conectada” de demandas e reivindicações.

Para além, a comunicação digital também influencia na aquisição e gerenciamento de recursos e na construção da própria identidade coletiva dos movimentos sociais. As ações ocorrem através de um processo de ‘compartilhamento em massa’, ou seja, uma difusão que se apropria de interações e frames pessoais, a partir de uma personificação e ‘personalização’ dos interesses divulgados.

Ao mesmo tempo em que temos organizações como o MBL e o movimento estadual Direita Minas, temos um crescimento significativo de mídias alternativas e ativistas no Brasil. Compreender a emergência de movimentos sociais a partir do uso da internet, portanto, também configura compreender as dimensões emocionais, cognitivas, culturais e morais que compõem a política, visto que as emoções coletivas desempenham um papel crucial no engajamento coletivo político.

É claro que o ciberativismo brasileiro possui descontinuidades, tanto em relação à popularização das redes sociais, quanto em relação aos eventos específicos do país. Entretanto, o que busquei retratar aqui não foi as especificidades, mas sim os escopos de uma ciência política voltada às redes de movimentos “conectados”. Por fim, cabe ressaltar: os movimentos sociais, ao utilizarem a internet como uma janela de organização, trouxeram pautas simbólicas para as agendas de interesses, bem como estabeleceram um diálogo horizontal e estratégico com a sociedade civil e com as instituições públicas.

  1. ALCÂNTARA, L. Ciberativismo e movimentos sociais: mapeando discussões. Aurora, São Paulo, v.8, n.23, p. 73-97, jun.-set.2015.
  2. TATAGIBA, Luciana. Os protestos e a crise brasileira. Um inventário inicial das direitas em movimento (2011-2016). Revista Sinais Sociais, Rio de Janeiro, v.11, n. 33, jan.-abr. 2017, p.71-98

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