“Visitados por Contrera e Pinochet, Schäfer exibiu seu arsenal de guerra: que hoje se sabe que incluíam pistolas, granadas, metralhadoras e, acredite se quiser, mísseis de superfície-ar e uma arma de destruição em massa, o gás sarin”

“E NÃO SOBROU NINGUÉM…”: nazismo, fanatismo e morte na Colonia Dignidad

31 de julho de 2020

NO SÉCULO QUE SE PASSOU, as extremidades das ideologias estavam em proeminência. Como um dos vencedores da Segunda Guerra Mundial, os Estados Unidos defendiam a democracia em suas fronteiras e conspiravam pelo totalitarismo de direita em seu quintal – a América Latina – em nome de impedir o alastramento de um “mal que corroía as fundações da civilização”: o comunismo da União Soviética. O resultado do conflito de interesses entre os capitalistas de Washington e os comunistas de Moscou? Ditaduras, guerras e genocídios. Junto de muitos dos outros ditadores da “Era dos Extremos” de Hobsbawm, Augusto Pinochet, o ditador do Chile, era um dos piores. Havia chegado ao poder com o Golpe de 1973 – que incluiu o bombardeio de La Moneda e o suicídio de Salvador Allende, o presidente que fora derrubado – e imediatamente deu início ao que seria uma das repressões mais violentas da América Latina.

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FONTE: DW

A Dirección de Inteligencia Nacional, conhecida como DINA ou “el monstro”, foi criada por Pinochet em 1974 e era um órgão de inteligência a serviço da repressão: incumbido da perseguição, tortura e extermínio de opositores e responsável por, no mínimo, 3 mil mortos e 40 mil torturados. Obedecendo somente ao ditador do Chile, a DINA torturou todas essas vítimas em centros de detenção como a Londres 38, Villa Grimaldi e o motivo da escrita deste artigo, a Colonia Dignidad.

A Colonia Dignidad é digna de assombro. Foi fundada em 1961 por Paul Schäfer – um alemão, médico e ex-nazista que havia fugido da Alemanha por acusações de pedofilia – nos arredores da cidade de Parral, no sul do Chile, e nomeada como a Sociedad Benefactora e Educacional Dignidad, cujo objetivo era dar “suporte à juventude e a infância desvalida”. Um terreno de 180km² havia sido cedido para a construção do projeto mediante uma solicitação de Schäfer à Embaixada da Alemanha no Chile, e uma vez em suas terras, ele criou um “Estado dentro do Estado”: um mundo paralelo e um domínio próprio, no qual ele era a autoridade absoluta e seus desígnios, a lei. Em pouco tempo, a benfeitoria de Schäfer se tornou um inferno.

Para entender os horrores de Dignidad, é necessário conhecer o seu criador. Paul Schäfer Schneider nasceu em 1921 no interior da Alemanha, e ainda na adolescência, ingressou na Juventude Hitlerista e foi cooptado pela Wehrmacht para atuar como um médico na ocupação da França, quando foi promovido a coronel. Porém, os aliados venceram a guerra e Schäfer, para escapar das punições, se escondeu no interior da Alemanha sob o disfarce de pregador. Carismático, muitas vezes era visto carregando um violão com o qual espalhava sua palavra de salvação através da abstinência sexual, assim como o anticomunismo e o antisemitismo.

Derrotados na Segunda Guerra Mundial, ocupados por estrangeiros, divididos, envergonhados e humilhados, os alemães estavam em ruínas e sem orientação. Em tal estado, quando se é um pregador dotado de carisma, reunir um secto de seguidores se torna mais fácil, e foi o que Schäfer fez. A sua vida é obscura nos anos em que durou a sua pregação. O que se sabe é que, no começo da década de 60, ele foi acusado de abusar sexualmente de duas crianças e, por medo das punições e de ter seu passado como nazista vindo a público, fugiu para o Chile com uns trezentos de seus seguidores, tendo em mente a chance de estabelecer uma comunidade ao modelo das aldeias dos tempos bíblicos, longe do comunismo de Moscou e das tentações de Satanás.

A Colonia Dignidad, em pouco tempo, se mostrou como o que era de fato: um campo de concentração. Reclusa em um mundo próprio, as leis do Chile não se aplicavam à comunidade de Schäfer, continuamente rodeada por uma rede de cercas elétricas e um sistema de vigilância que incluía torres equipadas com comunicação e refletores, sensores de movimento e câmeras que se mesclavam com as pedras e árvores, somava-se a isso os guardas que, vestindo os uniformes da antiga Wehrmacht, tinham armas de porte militar e cães. A Dignidad se tornou uma fortaleza, e dentro dela havia um hospital, escola para as crianças, dormitórios, fábricas de mel, mineração, pistas de pouso, além de uma rede de túneis, bunkers e outros bens – o que não havia era o espaço para a desobediência e a possibilidade de sair.

Na comunidade, tudo era compartilhado e público, incluindo as famílias. Schäfer era um fanático, e como tal, acreditava que as mulheres eram um “objeto de pecado” e pregava a oposição ao matrimônio e a estrutura familiar, o que, além de ser um resultado de suas crenças pessoais, era um método de controle. Quando um casal tinha filhos dentro das terras de Dignidad, a criança era arrancada dos pais e criada em uma enfermaria e nunca saberia quem era o seu pai, sua mãe ou seus irmãos. Todos os adultos eram chamados de “tios e tias” e Schäfer, de “tio eterno”. No momento em que completavam os sete anos de idade, as crianças entravam num regime de trabalho que ia da manhã à noite, sem dias de descanso e sem qualquer tipo de remuneração, viravam escravas.

O controle ao qual essa estrutura era subserviente se apresentava, principalmente, através das punições. Por exemplo, se uma criança tivesse o azar de “pecar” – e do ponto de vista de Schäfer, o pecado era algo muito subjetivo – ela teria alguns caminhos: ou ela seria posta para se confessar ao “tio eterno” em frente de todos os outros membros da Colonia e punida com castigos corporais, em seguida; ou poderia ser obrigada a sentar-se à mesa de refeições como todos os outros, mas sendo a única que não poderia comer e poderia, ainda, ser torturada. O mesmo poderia se aplicar aos adultos. O “tio eterno” convencia a todos, ao dizer que sabia o que era pecado, que tinha que punir, mas que iria perdoá-los, mesmo sendo pecaminosos. É um sistema de toxicidade que levava as vítimas a verem o seu algoz como um carrasco e um redentor, a quem deveriam temer e ter gratidão. E era muito pior para as crianças que, sem uma família e qualquer tipo de rede de apoio, não tinham a quem ir por socorro, mesmo quando eram as escolhidas para satisfazer os desejos de Schäfer em sua cama.

FONTE: THE TELEGRAPH

A Colonia Dignidad é surpreendente e estarrecedora: quanto mais fundo se cava, mais horrorizado e enojado se fica. O ex-nazista está morto, faleceu na cadeia em 2010, enquanto respondia pelo estupro de 25 crianças, o que já é um crime de dar náuseas, mas ainda não é próximo do real. Durante seus 30 anos de gestão da comunidade, o “tio eterno” chegava a abusar de crianças até quatro vezes ao dia. E, ainda, se o estupro provocasse algum tipo de resistência na vítima, ela seria enviada para um prédio nos arredores e passaria por experimentos para reprimir a sua libido. Como faziam isso? Werner Schmidtke, um ex-colono, em uma entrevista cedida a Al Jazeera, tem a resposta:

[…] alguns minutos depois, outra pessoa entrou na sala. Ela abaixou as nossas calças e nos deixou nus. Eu escutava gritos altos de um outro menino. E então eu descobri o motivo. Era a minha vez de receber o eletrochoque. O eletrochoque havia sido trazido da Alemanha, e lá, era usado para fazer o gado andar. Era muito forte. Eles davam choques nas partes mais frágeis do corpo: na cabeça e […] nos testículos. (Al Jazeera, 2013)

A escravidão era outra das mazelas do lugar, envolvendo, diariamente, 16 horas de trabalho no campo, sem remuneração e sem direito a descanso, seja para as crianças ou para os adultos. Como era de praxe, não havia a chance de parar, de reclamar ou de se sentir exausto, fizesse isso e seria punido. Era proibida a amizade entre homens e mulheres, os segredos e os risos, e só se podia obedecer. Embora o inferno se mostrasse nas terras da Colonia, o mundo externo a via com bons olhos, pois tudo o que as pessoas que circundavam os muros do tártaro viam – ou tinham a permissão de ver – era uma comunidade feliz, coletivista e cristã, na qual podiam confiar as suas crianças para a escola ou receber algum atendimento médico. O que os chilenos deveriam temer, além de tudo o que já foi dito, eram as relações de Dignidad com a DINA.

Através da DINA, os túneis e os prédios da Colonia Dignidad tiveram uma outra “razão de ser” que não fosse fazer o inferno da vida de seus colonos: torturar e sumir com os corpos dos opositores de Pinochet. A Dirección de Inteligencia Nacional, como eu disse no começo deste texto, era o “el monstro” que tinha atribuições que iam além das estabelecidas e, inclusive, podendo fazer a caça de militantes de oposição para além das fronteiras do Chile e torturá-los em mais de mil centros de extermínio e/ou concentração espalhados pelo país.

Em 1974, já se sabia que os homens de Contrera – chefe da DINA – e Pinochet tinham uma relação “cordial” com os chefes da comunidade e seus asseclas, e isso se dava pelo alinhamento ideológico de ambas as partes: eram anticomunistas, eram de extrema-direita e, como se pode dizer, as ditaduras da América do Sul tinham uma certa predileção com os nazistas. Visitados por Contrera e Pinochet, Schäfer exibiu seu arsenal de guerra: que hoje se sabe que incluíam pistolas, granadas, metralhadoras e, acredite se quiser, mísseis de superfície-ar e uma arma de destruição em massa, o gás sarin (abro um parênteses para dizer que, quanto ao gás, há indícios que se seja parte do Projeto Andrea, um plano do Chile e vizinhos para eliminar os opositores usando armas químicas).

Considerado como um dos mais secretos espaços de tortura, logo foram estabelecidos os mecanismos nos quais a Colonia operaria: no treinamento de agentes da DINA, como uma escola da prática de tortura e um centro de comunicação. Como disseram Helvia e Sthedile, Schäfer contava com muita tecnologia e organizou um centro que conectava os principais postos da DINA, que incluíam o seu quartel-general, a Escola Nacional de Inteligência e a Vila Grimaldi (HELVIA e STHEDILE, 2016 apud MATTOS, 2019). A Dignidad era central e poderosíssima, e isso assusta, mas os relatos das torturas que lá aconteciam, são dignos de pesadelos. São duas descrições, a primeira de Luis Peebles, um ex-prisioneiro e torturado na Colonia, e a segunda de um ex-soldado chileno, responsável por fazer os transportes dos prisioneiros.

[…] os métodos de se colocar os eletrodos era extraordinariamente meticuloso. Eles os espalhavam por todo o meu corpo: por dentro das unhas, nas mãos, nos meus pés e genitais. Os colocavam por dentro do meu pênis, ânus, nariz e boca. (tradução nossa) (Al Jazeera, 2013)

Perturbador o suficiente, este relato pode gerar ânsia de vômito se o leitor tiver uma imaginação fértil. O segundo, no entanto, releva que os métodos de experimentação nazistas estavam muito vivos nas torturas das quais Schäfer tomava parte – o que é corroborado pelas tentativas de repressão de libido, também através de eletrochoque, feitas em crianças.

“[…] Por que eles tinham o trabalho de levar os prisioneiros para a Colônia Dignidad? Talvez fosse porque os métodos de tortura fossem mais científicos, as pessoas diziam que eles faziam coisas macabras, que arrancavam córneas e olhos. Eu nunca vi, mas esses eram os rumores. Mas eu sei que eles faziam experimentos com os prisioneiros, descobrir o quanto de dor que eles conseguiam aguentar, com a ajuda de alguns brasileiros, porque tinha lá quem falasse português (tradução nossa) (Al Jazeera, 2013)”

Quantos corpos foram amontoados na Colonia? Não se sabe. As informações são escassas e o que se tem são oito fossas comuns na área, onde se enterravam os mortos, e o fato de que, em 1977, estavam sendo feitos de prisioneiros um total de 112 pessoas, incluindo antigos líderes da Unidad Popular, o partido de Allende, boa parte desta centena de presos continuam desaparecidos, sem respostas e suas famílias, sem o direito de enterrar os seus mortos. O que é o caso de um cientista dos Estados Unidos, Boris Weisfeiler, que passeava pelos campos aos arredores de Parral, quando foi pego pela milícia da Colonia, interrogado e morto e, por anos, a reposta das autoridades chilenas foi de que ele teria se afogado num rio. Não é novidade, mas os desaparecidos e as atrocidades dos fascismos e das ditaduras vão se acumulando, e as repostas e a justiça, nem tanto.

FONTE: RFI

Antes de concluir este longo artigo, quero falar (muito brevemente) sobre um poema de Martin Niemöller, que é conhecido no Brasil como “E não sobrou ninguém…”, e diz:

“Primeiro eles levaram os socialistas e eu não protestei, porque eu não era um socialista. Depois levaram os sindicalistas, e eu não protestei, porque não era um sindicalista. Depois eles vieram pelos judeus, e eu não protestei, porque não era um judeu. Então eles vieram por mim, e já não havia ninguém para protestar por mim.”

Este poema carrega consigo um apelo a liberdade e a proteção dos direitos dos cidadãos, violados pela Colonia Dignidad e sistematicamente, esmagados pelos fascismos. O inferno que foi a Dignidad já não existe, e hoje é um resort mantido pelos colonos que não quiseram – ou não conseguiram – ir embora. O regime de Pinochet também é história. Caíram também a União Soviética e a Guerra Fria, o nazismo e as ditaduras da América Latina. Mas não se enganem, porque podem voltar, tudo pode se repetir e novas colônias podem surgir. O poema de Niemöller é um sonoro grito, um “não” ao silêncio quando se está frente à barbárie, e não se engane, pois estamos frente a ela, portanto, gritem e esperneiem, façam-se ouvir.

  1. MATTOS, Renata. DIGNIDAD: a colônia alemã a serviço da repressão chilena. Revista Espacialidades [online], vol. 15, n. 1, p. 144-164
  2. SEITZ, Max. Os segredos da colônia alemã que uniu nazismo, abuso sexual de crianças e tortura em nome de Pinochet. BBC, 25 de junho de 2016. Disponível em: <https://www.bbc.com/portuguese/internacional-36882123>. Acesso em 28 de Julho de 2020.
  3. GALINDO, Juan. Colônia Dignidade, a seita alemã que levou o inferno ao Chile. El País, Madri, 5 de maio de 2018. Disponível em: <https://brasil.elpais.com/brasil/2018/05/05/cultura/1525502133_265134.html>. Acesso em 27 de Julho de 2020.
  4. DAVISON, Phil. Paul Schäfer: Nazi colonel who established an anti-Semitic colony in Chile after the war. The Independent, 24 de maio de 2010. Disponível em: <https://www.independent.co.uk/news/obituaries/paul-sch-fer-nazi-colonel-who-established-an-anti-semitic-colony-in-chile-after-the-war-1981014.html>. Acesso em 29 de Julho de 2020.
  5. RABASCALL, Júlia. Paul Schäfer y Colonia Dignidad, piezas clave en la dictadura de Pinochet. El Diario, 7 de julho de 2016. Disponível em: <https://www.eldiario.es/politica/paul-schafer-colonia-dignidad-pinochet_1_3911297.html>. Acesso em 31 de julho de 2020.
  6. Al Jazeera. The Colony: Chile’s dark past uncovered. 15 de dezembro de 2013. Disponível em: <https://www.aljazeera.com/programmes/aljazeeracorrespondent/2013/11/colony-chile-dark-past-uncovered-2013114105429774517.html>.
  7. Tales of torture. Al Jazeera, 15 de dezembro de 2013. Disponível em: <https://www.aljazeera.com/programmes/aljazeeracorrespondent/2013/10/tales-torture-2013103081121394171.html>. Acesso em 29 de julho de 2020.

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