Cortella: “Assim como há modos de má Religião, há também modos de má Ciência”

Pare, olhe e escute" diz Mario Sergio Cortella sobre retorno das aulas  pós-pandemia em SC | WH3 - Sistema 103 - Rádio Raio de Luz - Rádio Lider -  Jornal O Lider

No dia 8 de setembro de 2020, numa entrevista exclusiva ao JUDAS, Cortella tratou de temas que perpassam as crises – político e sanitária – além de religião e sociedade!

  1. Em sua perspectiva, como a pandemia de covid-19 afetou a crença (ou a descrença) no conhecimento científico? Até que ponto o conceito weberiano de ‘desencantamento do mundo’ é cabível em um mundo pandêmico?

Uma pandemia desta natureza que estamos ainda tendo, marcada pelo desconhecimento mais direto do vírus causador e com tantos desencontros das autoridades políticas e sanitárias, acaba produzindo uma pluralidade de reações, desde o recurso à superstição, até a indefinição das metodologias científicas de enfrentamento, passando pelo oportunismo homicida de quem tem interesses escusos e deletérios e quer, portanto, firmar a mera opinião como sendo mais consistente que os cânones científicos.

  1. Sabemos que a religião é uma instituição fundamental em nossa sociedade e frequentemente se posiciona em oposição a ciência, assim como sabemos que grupos religiosos são fortemente unidos pelo senso de grupo que as igrejas, suas doutrinas e rituais, oferecem, tal qual é visível que existem líderes religiosos ligados à extrema-direita, ao negacionismo científico e que conduzem esses grupos com fins políticos. Em suma, como o senhor acredita que os grupos religiosos influenciaram os crescentes números da pandemia de covid-19 no Brasil e, se o fizeram, o quão profunda é esta influência?

A influência de agrupamentos religiosos sempre foi – e continua sendo – orientadora das condutas das pessoas que a estes estão vinculadas, tanto para práticas mais protetivas quanto para o contrário. No caso pandêmico, qualquer forma mítica e mística exacerbada, venha da Religião ou não, contribui para um desvio dos caminhos mais exitosos na lida com a doença e seus efeitos negativos múltiplos. Assim, a influência malévola e a benévola vem inclusive de grupos religiosos, que tanto puderam, alguns proclamar o engano como sendo a trilha correta, como outros, que buscaram esclarecer e apoiar com movimentos concretos de solidariedade. Assim como há modos de má Religião, há também modos de má Ciência.

  1. No sentido estrito, em que medida é possível associar a cosmogonia neopentecostal ao bolsonarismo enquanto projeto político?

Uma parte do neopentecostalismo tem conexão intencional e pretérita com o projeto político do atual Executivo Federal. Outra parte adere mais a alguns princípios que esse mesmo projeto político afirma defender, do que uma ligação ideológica nítida e deliberada. A coincidência não casual entre o acreditado e o proclamado favorece inclusive uma adesão menos emancipada e mais intempestiva, a partir de fundamentos que não são exclusivos dessa cosmogonia e que, a partir dela mesma, pode gerar – como o faz em outras denominações eclesiais – engajamentos menos automáticos.

  1. Considerando a expansão das denominações neopentecostais no Brasil enquanto denominações centradas em lideranças expoentes, como o senhor avalia a participação destas lideranças na esfera política nos últimos 6 anos? 

Não há na história do Brasil momentos de ausência das corporações religiosas na ação do poder político e econômico. De variadas formas, desde a fundação em 1500 até agora, com marchas e contramarchas, a presença da ascendência e da interferência de instituições nesse campo sempre foi expressiva. Nos seis anos mais recentes há uma substituição paulatina das ingerências religiosas mais antigas pelo fortalecimento de conglomerados ou alianças, que não mais se dispõem a uma atuação discreta (e enérgica) nos bastidores, como o foi, e empreendem um protagonismo explícito de atuação no Legislativo como bancada, sem fazê-lo de modo recatado, o que acaba por surpreender quem estava habituado aos tempos anteriores.

  1. As religiões e os sistemas de crença delinearam, por tempo considerável, o imaginário da humanidade desde a antiguidade clássica. Conseguintemente, isto desencadeou, no que tange à mimese aristotélica, a criação de mitos como representações ideais de mundo. Na poesia grega, por exemplo, Homero já representava sua sociedade através de uma perspectiva artístico-política forte e sublime. O homem grego, por assim dizer, foi educado social, política e emocionalmente por meio dos mitos. E isto, em certa medida, atribuiu a este gênero literário a função de gerar respostas e molduras possíveis às demandas do homem ao longo do tempo. No entanto, na esteira estética da contemporaneidade, os dias não têm sido de poe sia. De v ido a uma série de eventos que descredibilizam a política brasileira, evocar o mito como representação ideal para a nossa nação parece-nos cada vez mais uma ideia romântica distante e anacrônica. Logo, se houve, um dia, certa função atribuída ao mito na sociedade, como este se configuraria em pleno século XXI, em meio ao cenário descrente e distópico da pandemia?

A emergência da necessidade de um mito expressa mais um desalento quanto à efetividade dos processos políticos usuais do que uma natureza apalermada. A história, nacional ou não, sempre recorreu à representação e concentração dos desejos e soluções em pessoas que aparentassem não estar contaminadas pelo que se descrê. Por isso, a edificação de personas com compleição mítica é mais uma alternativa, ainda que infundada, para a solução utópica do que resultante de uma distopia concentrada.

  1. Sabemos que a visão de morte no mundo ocidental está intrinsecamente ligada à escatologia cristã. Durante este período de isolamento social observamos, em um grande número de brasileiros, um comportamento destemido diante das ameaças de morte pelo covid-19 e da perda de familiares. Ao seu ver, em que medida fatores religiosos podem influenciar esse comportamento dos brasileiros?

Um comportamento mais distraído ou, até, mais irresponsável, é multifatorial; nem sempre pessoas deixam de ingerir alguns alimentos ou abandonam o consumo de substâncias danosas somente por conta de exemplos negativos familiares e de resultados letais. Religião influencia, mas não determina sozinha e nem é fator exclusivo para condutas insensatas ou temerárias.

REFERÊNCIAS:

  1. Foto do título: https://wh3.com.br/noticia/203456/%22pare-olhe-e-escute%22-diz-mario-sergio-cortella-sobre-retorno-das-aulas-pos-pandemia-em-sc.html
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