Com raízes cortadas, não se chega ao topo: a tentativa de colonização dos saberes amazônicos na contemporaneidade

Os estudos decoloniais nos instrumentalizam a perceber diversos processos de hegemonia cultural que perpassam violentamente nossos corpos – enquanto sujeitos amazônicos – e, sobretudo, definem a forma que somos vistos pelo resto do mundo e nossa participação social, geralmente estabelecendo uma relação de colonizador e povo colonizado.

Todo povo colonizado, isto é, todo povo no seio do qual nasce um complexo de inferioridade, de colocar no túmulo a originalidade cultural local – se situa frente-a-frente à linguagem da nação civilizadora, isto é, da cultura metropolitana. O colonizado se fará tanto mais evadido de sua terra quanto mais ele terá feito seus os valores culturais da metrópole.  (FANON, Frantz. 1979).

É de conhecimento fático – comprovado por meio de vasta documentação – que, durante um longo período, a região amazônica foi vista apenas como fornecedora de matéria prima e com potencial para gerar riquezas, sendo friamente calculada a forma que seria ocupada, quem ocuparia e os meios utilizados nesse processo.

Na Amazônia, assim como na América Latina, esse projeto de tomada de poder branco, cristão e hegemônico segue promovendo o epistemicidio das crenças e saberes, invisibilizando subjetividades valiosas, resultando em uma história contada somente sob o paradigma dos que suprimiram historicamente vozes e memórias. Nessa perspectiva, Sidney Nogueira fala sobre colonialismo do poder:

A colonialidade do poder refere-se à dominação por meios não exclusivamente coercitivos. Não se domina apenas por meio da violência; muito pelo contrário, esta forma de dominação não se limita em reprimir fisicamente os dominados, mas também de conseguir naturalizar o imaginário europeu como única forma de relacionamento com a natureza, com o mundo social e com a própria subjetividade, ou seja, está-se diante de uma colonização epistêmica. (NOGUEIRA, 2020, p. 125).

A perspectiva colonizadora do pensamento apresenta a ideia de que é necessário trazer “civilização” para a região amazônica, sendo esse um processo que promoveu a dizimação de povos tradicionais ao longo da história. Com a ascensão da extrema-direita à presidência do Brasil, o que antes ocorria de forma mais mascarada, passou a se tornar política de estado e garantiu espaço ativo na agenda de governo.

Neste sentido, o presidente Jair Messias Bolsonaro, fez uma fala em cerimônia oficial, dizendo: “coisas do mundo civilizado chegarão à região Norte do país”. A declaração exemplifica a forma preconceituosa com que a região amazônica é vista pelo governo brasileiro, e, acima de tudo, estratégica, que aborda as novas formas de exploração da região e da nossa população.

Não é possível analisarmos as formas de colonialismo na região amazônica sem levarmos em consideração a atuação de Damares Alves no ministério da Mulher, da Família, e dos Direitos Humanos. Damares representa muito bem esse projeto de poder colonizador, trabalhou em missões de evangelização na Amazônia, processo cruel que destitui as crenças e costumes da comunidade tradicional e promove a aceitação da religiosidade e costumes cristãos.

A figura de Damares é geralmente considerada cômica por parte da oposição, mas não se deve ignorar o quão é estratégica a presença da ministra no governo Bolsonaro, e como é importante a sua atuação para pôr em prática esse epistemicídio. Neste sentido, o vídeo divulgado da reunião ministerial de 22 de maio de 2020 nos mostra uma fala da ministra: “Então, tudo que nós formos construir, nós vamos ter que ver, ministro, a questão dos valores também. Nossos quilombos estão crescendo e os meninos estão nascendo nos quilombos e seus valores estão lá. Então, tudo vai ter que ver a questão dos valores”.

Nota-se na fala de Damares uma preocupação em levar valores para essas comunidades que, por si só, já possuem valores dentro das suas particularidades. Percebe-se, uma preocupação em apagar os saberes e as produções de costumes locais, para poder construir um projeto hegemônico de população, dentro dos parâmetros estipulados pelo poder, e, sobretudo, em cima do apagamento da história dessas comunidades. Para por fim, explorar.

Para falarmos da região amazônica e de qualquer projeto político que nos envolva, é necessário se pensar todas as especificidades que nos norteiam e refletir acerca da relação dos povos com a floresta, a religiosidade, a culinária, os costumes e os saberes locais. É inadmissível que se submetam todas essas subjetividades, sob a força do imaginário da classe dominante, que historicamente apenas explorou com interesses no capital e marginalizou nossos corpos e saberes.

Finalizo o texto com um questionamento que certa vez ouvi partir de uma jovem militante negra da Amazônia, chamada Beatriz Caminha:

“E se fosse daqui, do meio da Amazônia que a gente pensasse o mundo?”

Por Marcos Ferreira

REFERÊNCIAS:

  1. BECKER, Bertha. Geopolítica da Amazônia: a nova fronteira de recursos. Rio de Janeiro: Zahar, 1982
  2. FANON, Frantz. Os Condenados da Terra. 2º ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1979.
  3. FREIRE, Louise. “Nossos quilombos estão crescendo e os meninos estão nascendo nos quilombos e seus valores estão lá”, afirma Damares em polêmica reunião ministerial. Notícia Preta, 22 mai. 2020. Disponível em: <https://noticiapreta.com.br/nossos-quilombos-estao-crescendo-e-os-meninos-estao-nascendo-nos-quilombos-e-seus-valores-estao-la-afirma-damares-em-polemica-reuniao-ministerial/>. Acesso em: 21 set. 2020
  4. NOGUEIRA, Sidney. Intolerância Religiosa. São Paulo: Sueli Carneiro; Pólem, 2020. 125 p.
  5. ‘Outras coisas do mundo civilizado chegarão à região Norte’, afirma Bolsonaro. METRO1. Disponível em: <https://www.metro1.com.br/index.php/noticias/politica/95611,outras-coisas-do-mundo-civilizado-chegarao-a-regiao-norte-afirma-bolsonaro>. Acesso em: 21 set. 2020
  6. SANTOS, Roberto. História econômica da Amazônia, 1800-1920. São Paulo: T. A. Queiroz, 1980.
  7. Imagem de título: https://ultimosegundo.ig.com.br/ciencia/meioambiente/2019-08-23/confira-como-foram-os-protestos-em-defesa-da-amazonia-nesta-sexta-pelo-brasil.html.amp
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